
Mola Dudle na Fonoteca, em Lisboa
MOBÍLIA DE ALTA FIDELIDADE
Os Mola Dudle não facilitam. O seu conceito de decoração mobiliária aponta para uma aparente desarrumação onde os sons se organizam
como hidras numa embriaguez de referências que remetem, em Portugal, para o pioneirismo dos U-Nu (...) e, lá fora, para a estética
"rock in opposition" da editora Recommended, o "cut-up" conceptual dos Negativland, a flutuação de frequências mentais dos Biota,
o sarcasmo de Frank Zappa e em geral a electrónica divertida do selo alemão a-musik. Tudo junto - mais a utilização de panelas,
água, televisão, atendedor de chamadas, estores, armário, lápis, interruptores, colchão, cortinados, talheres, relógio de cuco,
micro-ondas, torradeira, torneira, máquina de lavar a loiça, cadeira ou moinho de pimenta como artefactos musicais e ambientes
de varanda, cozinha ou Bairro-Alto - sobra ainda largo espaço de manobra para uma linguagem própria onde a colagem, o arrojo e a
pluridimensionalidade se unem para formar simulacros de canções, apontamentos electro-acústicos e um swing electrónico a puxar
pelos neurónios. Os ingleses chamariam à música dos Mola Dudle um "acquired taste", nós apenas recomendamos a audição urgente de
"Mobília" e uma verificação, já esta noite, da forma como esta arquitectura de interiores poderá sustentar-se no "design" ao vivo.
Mola Dudle - Lisboa Fonoteca (edifício Monumental, no Saldanha), às 21h30.
Fernando Magalhães, in Público 6 Dezembro 2000.