PRATA DA CASA
MOBÍLIA É UM TÍTULO APROPRIADO PARA O PRIMEIRO CD DO DUO DE NANU E MIGUEL CABRAL. OS SEUS PRINCIPAIS INSTRUMENTOS SÃO OBJECTOS DE USO DOMÉSTICO.

Cadeiras, panelas, atendedor de chamadas, telefone, relógio de cuco, garrafas de plástico, moinho de pimenta, televisor, bule de chá. Destes e de outros objectos do género, todos os que podemos encontrar numa cozinha ou numa sala de estar, é feita na sua essência a música que ouvimos em Mobília, o disco de estreia do projecto Mola Dudle (que os leitores tiveram oportunidade de conhecer no CD PROMÚSICA 42). Juntando a criatividade e a perícia de Nanu e Miguel Cabral com intervenções esporádicas de outros elementos, o CD não só marca o regresso da AnAnAnA às edições, depois de um ano de paragem, como é uma autêntica pedrada no charco, agitando águas que há muito estavam paradas. Mobília foi feito por «adição». Cada um dos músicos enviava as suas gravações ao outro (Nanu vive em Sintra e Miguel Cabral em Faro) para este as completar. Tratou-se, portanto, de um trabalho laboratorial. «A distância entre mim e Nanu foi o ponto de partida. Um dos aspectos mais interessantes foi pudermos surpreender-nos mutuamente como num jogo. Cada um acabou os "pré-temas" sem qualquer interferência do outro. O contacto era telefónico e servia apenas para troca de ideias: nunca ouvíamos o que o outro fazia. Só mesmo quando as peças ficavam prontas. Ou seja, metade do disco foi uma surpresa para cada um, pois o Nanu desventrou as minhas bases e eu espatifei as dele», explica Miguel. Para Nanu, esta foi «a maneira mais imediata e proveitosa que se encontrou de trabalhar». Em vez de se juntarem e tocarem em tempo real, foram trocando as suas contribuições individuais: «Tanto eu como o Zé Miguel lidamos usualmente com máquinas de baixa categoria e vimos aqui uma possibilidade de realizar qualquer coisa que se afastasse das estruturas tradicionais do rock. Pensámos: se as máquinas existem é para nos servirem e, já que estamos distantes um do outro, usemos este tema como matéria de trabalho. O telefone e o correio surgiram como um veículo de experiências muito "apetitosas", mais do que a Internet, que para estas coisas ainda é muito lenta em Portugal.» Um dos aspectos mais curiosos deste álbum dos Mola Dudle é a articulação de «música artesanal», feita com «instrumentos» que não foram concebidos para este uso, com a electrónica e, designadamente, a sua máquina mais sofisticada, o computador, estando os instrumentos «convencionais» (guitarras, contrabaixo, teclados, banjo, flauta, bateria) no meio. «Este disco poderia ter-se chamado Paradoxo: tecnologia versus bricolage; melodia versus ruído; surpresa versus cliché; os meus gostos musicais versus os gostos musicais do Nanu; casa versus distância...», explica Miguel Cabral. A isto, chamam eles «potenciação do vulgar».

ESTÚDIO DOMÉSTICO
Os Mola Dudle são a expressão acabada das virtualidades do estúdio doméstico. Mas para eles fazer um disco em casa é uma necessidade que exige a melhor adaptação possível, face aos custos dos estúdios profissionais, ou é uma causa e uma via que se justifica por si mesma? A resposta é de Miguel Cabral, percussionista na Orquestra de Metais da Fundação Pedro Ruivo e na Big Band do Conservatório do Algarve: «A grande vantagem imediata de se trabalhar em casa é que se pode estar horas a experimentar em tomo de um tema sem qualquer pressão, uma vez que não existe um taxímetro a pingar. Para além de que se pode parar para beber um copo de leite ou descansar os neurónios. Compor e gravar nestas condições é um processo que acaba por valer por si.» A verdade, como diz Nanu, conhecido como compositor de cena no grupo de teatro O Bando, é que «há um determinado tipo de pesquisas que teriam sido impossíveis em estúdio, como por exemplo gravarmos instrumentos com uma determinada acústica na sala de jantar ou na casa de banho, usarmos ritmos de televisão como metrónomo para esta ou aquela parte, a infindável gravação sobre gravação de instrumentos acústicos, a procura desesperante do melhor plug-in para o baixo, a captação de conversas do quotidiano que serviram de linha vocal, etc., etc.». Em complemento à diversidade de sonoridades deste álbum está a miscelânea de géneros e estilos, alguns dos quais não se podem rotular facilmente. Pressentem-se, por exemplo, influências do chamado «rock progressivo» dos anos 70, característica, no entanto, que os Mola Dudle relativizam. «Se o gosto pela experimentação e a não identificação com géneros é uma característica «progressiva», se calhar somos progressistas, mas de rock temos muito pouco, a não ser o uso de determinadas notas graves ou certos ritmos mais cadenciados, que quase sempre sofrem um "colapso" a meio», esclarece Nanu. Seja como for, na música do dueto regista-se uma forte presença de elementos retro. Miguel confirma-o: «Gosto especialmente de música que não se consegue datar de forma imediata. E da "estranheza" que se pode criar com a mistura de várias épocas numa mesma canção. São atmosferas que nos agrada muito explorar.»

MISTÉRIO
Nanu também pensa assim: «Atrai-me o facto de as coisas se tornarem dúbias com o tempo. Se, por um lado, perdem o brilho e tomam-se mais transparentes, por outro, adquirem uma camada de «pó» que lhes aumenta a carga de mistério. A música e os instrumentos do passado encerram em si uma enorme quantidade de heranças. Mas isso não quer dizer que não nos interesse o que está aí e o que há-de vir. Tentamos construir as coisas devagar, apoiados por bases mais sólidas do que o último ritmo drum 'n' bass ou a abordagem à maneira da escola Y.» «Explorar sonoridades, linguagens e instrumentos. Brincar. Procurar coisas novas e aproveitar o que, simplesmente, acontece.» É deste modo que os Mola Dudle entendem a sua vocação experimentalista. «Se bem que me incomode o universo pseudo-intelectual que, por vezes, envolve o termo "experimentalismo"...», confessa, no entanto, Miguel Cabral. Nanu diz mesmo não conseguir conceber uma música que não passe por uma total liberdade de movimentos. «Experimentar significa para nós, de alguma maneira, pintar, o que só pode ser feito através de um processo espontâneo, mas sempre com o cuidado de lidar com símbolos ou valores que façam parte do imaginário colectivo. Experimentar para nós é combinar cores, timbres, tipos. Tudo o que vem à rede pode vir a ser peixe, até o show biz, que é uma excelente matéria de dissecação.» Talvez para próximos discos... Mobília caracteriza-se também pela breve duração das peças e pela sua quantidade, para além da impressão de que não foram «acabadas», dando ao conjunto do CD uma dimensão fragmentária e «acidental». «Aconteceu tudo naturalmente», explica-se Miguel. «É possível que o aspecto inacabado tenha surgido da destruição das estruturas. A partir de determinada altura achámos que o disco poderia funcionar como uma colecção de cromos ou postais. Daí o facto de os temas serem curtos.» Uma ideia reforçada por Nanu: «Em todo o disco há uma ideia de esboço porque, muitas vezes, é no esboço que residem as melhores formas. Tentámos encontrar o melhor de todas as partes e não quisemos repisar ideias. O que se pretende nesses «postais» é que as pessoas façam percursos de audição. Que se deixem arrastar pelas várias atmosferas da casa e descubram neles referências, que podem ser físicas ou psíquicas, mas que são sempre reservadas. Todos os temas são pequenos objectos que se mostram em diversos ângulos. E foi a ironia que eles encerram que nos deu gozo explorar.»



Rui Eduardo Paes, in Promúsica Março 2001.