DISCOS

Mola Dudle
Mobília (Ananana)

Rob Ellis
Music for the Home (Ananana)



O bom, velho e sábio, Erik Satie, há um século, nem sequer poderia imaginar quão visionário era quando falava sobre (e praticava) a «musique d'ameublement» e das consequências que isso poderia ter no futuro mais distante. Ele dizia «d'ameublement» mas, se calhar, não supunha que essa noção de «mobiliário» (sonoro, no caso) pudesse ser ententida num sentido tão literal. Várias décadas após a consumação da estética «wallpaper music» e da sua recuperação sob as diversas acepções de «E-Z listening», «ambient», «mood», «lounge», «elevator music» e todo o resto que, agora, não ocorre, a «música para o lar» transformou-se irremediavelmente no pesadelo para o lar ou na vertigem da digestão de todas as assombrações que cada lar (ou bar de hotel, ou supermercado) merecem. Como sempre mereceram. Os remansos da família são tudo menos pacíficos e devem ser capaz de identificar os seus fantasmas.

Com a Mobília dos Mola Dudle, em trânsito entre Sintra e Tavira, há assombrações digitais que bastem, reverberações domésticas à solta, «samples» de utilitários com o freio nos dentes, distorções da realidade, sonhos seriamente perturbados, ameaças à esquina da sala de estar, «feed-backs» virtuais à solta, serviços horários triturados, latidos cibernéticos e almas do inframundo cercadas por uma muralha de percussões mecânicas em vinte e cinco miniaturas assimétricas captadas do éter eterno onde, para sempre, todas se imobilizarão.

Music For The Home (do baterista de P.J. Harvey), se, pelo seu lado, se iniciou como uma colecção de peças para piano, acabou por ser uma flutuante justaposição de homenagens a Debussy sobre ritmos de free-jazz executados em máquinas de escrever, sonoridades electrónicas, exercícios sobre a organização geométrica da música e séries doecafónicas abençoadas pelos espíritos de Olivier Messiaen, Satie, Ravel, Stravinsky, Britten e Boulez a cuja música Rob Ellis se propôs reagir, inspirado pelas técnicas estocásticas de Xenakis e, entre várias outras coisas («It was my one experiment with total abstraction, I put nothing of myself into it»), por um livro de um matemático italiano dedicado a Debussy e ao seu conceito da proporção. Exactamente o género de rigor que preside à organização e funcionamento de todo o lar perfeito que se preza de o ser.



João Lisboa , in 'Cartaz', Expresso 24 Fevereiro 2001.